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BRASIL, Sul, URUSSANGA, Rancho dos Bugres, Homem, Spanish, Italian, Arte e cultura, César Pereira, jornalista e ilustrador.
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uma barra de ferro na cara


Capítulo 44
Uma barra de ferro na cara
Quando JB parece ter finalmente encontrado o verdadeiro rumo

Era domingo, dia de visitas no Presídio Central de Porto Alegre. JB encontrou um pouco de dificuldade de encontrar vagas no estacionamento, pois havia um canteiro de obras no local. Uma barra de ferro semelhante aquela que ele havia acertado a cara de Maicon Jadson no estacionamento da loja de materiais de construção, chamou-lhe a atenção. Uma barra de ferro semelhante aquela havia transformado sua vida num inferno. Agora era coisa do passado. Depois de muito custo, finalmente conseguiu estacionar o Opala Comodoro.

Na portaria do presídio passou pela revista sem problemas pela revista. Depois seguiu por um corredor mal iluminado até a ala feminina. Mayra estava a sua espera. Era linda quando sorria. Ao vê-lo, veio correndo em sua direção e o abraçou com alegria. JB entregou-lhe uma caixa de bombons. Ela agradeceu e logo abriu a caixa. Comia com vontade. Adorava aqueles bombons. Além dos bombons ele entregou um envelope. Mayra abriu e começou a pular de alegria. Era sua liberdade condicional. Sim, casariam no final do ano. Os dois se abraçaram e se beijaram demoradamente.

 

Epílogo
              Naquele dia na estação rodoviária de Porto Alegre, JB havia se entregado à Polícia. Também havia denunciado Mayra Thifany Buonavitta. Quando ela chegou ao aeroporto e tentou pegar o jatinho rumo à Bolívia, foi presa em flagrante com alguns milhões nas valises.
              Quando soube da captura de JB, Maicon Jadson de Souza, o vulgo Chave Mestre, tratou logo de esclarecer o episódio da barra de ferro na cara. Ele inocentou JB no caso. Confessou que estava tentando arrombar o Opala Comodoro de JB quando sofreu o ataque.

– Ele só tava defendendo o que era dele, dotô juiz. Na época a gente éramos bandido, mas agora a gente semos gente do bem, dotô.

Natasha ficou ainda mais orgulhosa de seu homem pela a atitude de contar a verdade à justiça.
              O depoimento de Mayra também ajudou. Ela disse que plantou no presídio o falsificador Zé da Silva e o pedreiro Meia Colher para preparar a fuga de JB. Ela foi quem praticamente manipulou tudo. Calado era pago par tomar conta de JB. Fora ele quem havia desferido a facada mortal em Batelada, o chefão dos bandidos no presídio.

 

O tempo da visita havia esgotado. Na saída do presido, em direção ao estacionamento, JB viu um sujeito tentando arrombar o seu Opala Comodoro. O sangue ferveu. Enfurecido, JB foi até o canteiro de obras, pegou a barra de ferro que tinha visto quando estacionava e foi até o carro. Quando o arrombador se deu conta de que JB o apanhara, tentou em vão um sorriso amarelo. Foi o último com os dentes naturais, pois JB os quebrou quando o acertou com uma barra de ferro na cara.

 

Fim



Escrito por César Pereira às 13h55
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Capítulo 43

A verdade
Quando JB decide mudar o rumo da sua própria história

JB permaneceu parado por um bom tempo no mesmo lugar. Um policial chegou até ele e perguntou?

– O senhor está bem?
JB não respondeu de imediato. Foi preciso o policial perguntar pela segunda vez.
– Vou ficar!
– O senhor precisa de ajuda?
– Sim.
– O que posso fazer pelo senhor?
– Levar-me para uma delegacia.
– O senhor quer prestar alguma queixa?
– Quero me entregar e fazer uma denúncia.
Salvar e Publicar



Escrito por César Pereira às 20h36
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Capítulo 42

A viagem

Quando JB, depois de tantas escolhas erradas, toma uma importante decisão

 

O ônibus viajava sem problemas pela BR-101. Em pouco tempo chegariam em Porto Alegre. A mulher ao seu lado vez por outra deixava a perna encostar nas de JB. Este tentava entender o inferno em que estava metido.

– É tudo culpa daquela mulher!

– As mulheres são sempre culpadas. – Respondeu a mulher do banco ao lado.

– A senhora me desculpe, eu estava pensando em voz alta.

– Não se preocupe comigo. Falar é bom.

JB olhou mais detalhadamente a mulher que assentava ao seu lado. Tinha um cheiro bom. Perfume importado, pensou. A roupa era meio escandalosa. Também usava óculos escuros que quase tampava o rosto. A voz lhe parecia familiar. A viagem era longa e talvez ela fosse um bom papo.

– A senhora vai para Montevidéu também?

– Não sei bem. Talvez eu fique em Porto Alegre, talvez eu siga para Montevidéu. Isso vai depender da viagem.

JB achou esquisita a resposta da mulher. Mas ele também era meio esquisito.

– Eu vou para Montevidéu, disse JB.

– Eu sei. – disse ela

– Como é que você sabe? – Perguntou JB surpreso.

– Você me disse.

– Eu?

– Sim, você me perguntou se eu também iria para Montevidéu, logo deduzi que o senhor iria para capital Uruguaia.

– A senhora não precisa me chamar de senhor. – Estendeu a mão para ela e falou – João Batista Cordeiro ao seu dispor. JB para os íntimos.

Por um momento a mulher permaneceu calada. Protegida pelos óculos escuros olhava detalhadamente para o sujeito ao seu lado. JB se deu conta que havia cometido uma besteira que poderia terminar mal. Ele acabava de revelar para uma pessoa estranha a sua verdadeira identidade. Era um fugitivo e deveria usar o nome falso, aquele que estava na documentação que Bileca havia lhe entregado. E se ela fosse parte integrante da quadrilha. Se fosse, estava fodido. Talvez não fosse. Talvez fosse.

Antes de falar, a mulher tirou os óculos escuros, a peruca loira e estendeu a mão para JB:

– Encantada. Mayra Thifany Buonavitta, sua...

– Vaca, filha da puta! – Falou JB como se espremesse as palavras.
– Estúpido, veado e corno! – Disse ela como se fosse contar-lhe um segredo ao pé do ouvido.

Chegando em Porto Alegre o veículo estacionou no terminal rodoviário. Muitos passageiros desembarcavam. JB não acreditava no que estava acontecendo. Mayra, uma das pessoas mais procuradas pela polícia estava sentada ao seu lado. Ela recolocou a peruca e os óculos, cutucou JB e disse:

– Vamos descer aqui.

– Você está louca? Tenho que levar isso – mostrou as maletas com os dólares – até Montevidéu!

– Vamos descer aqui!

– Ah, não vou não! Os caras vão me matar!

– Pode ser que sim, mas vamos descer aqui, caso contrário eu mesma faço o serviço aqui dentro dessa merda.

JB segurou pegou as maletas e saiu do ônibus como quem segue para a forca. Lamentou o dia que conhecera Mayra Thifany. Lamentou ter contratado o Gaudério para reformar sua casa. Lamentou ter batido com uma barra de ferro na cara do Chave Mestre, Lamentou o momento em que aceitou a proposta da fuga.

– Os caras vão nos matar!

– Que caras?

– O pessoal do Bileca! Eles monitoram tudo. Eles sabem tudo.

– Agora não sabem mais.

– Você os matou?

– Não!

– Então o que você fez?

– Paguei, JB! Paguei! Dinheiro, bufunfa, grana, Entendeu?
– E os caras do Uruguai?

– Soy yo!

– Você?

– Sim, sou eu!

– E agora?

– Agora, seguimos para o aeroporto, querido. Vamos voar para a felicidade. Tem um jatinho esperando por nós.

– Por nós?

– Sim, por nós! Vamos para Bolívia e de lá seguiremos para Suécia, meu bem.  Você não vem comigo?

– Não.

– Mas eu planejei tudo para terminarmos juntos.

– Só esqueceu de um detalhe.

– Que detalhe?

– De me consultar.

– Deixa este orgulho besta de lado, nós nos amamos!

– Eu não ligo a mínima para você! – Gritou JB.

– Mas eu ligo, sempre liguei.

– Me colocando na cadeia?

– Eu não o pus na cadeia!

– E aquele maldito julgamento, você esqueceu?

– Era o meu trabalho.

– Trabalho uma merda! Você fodeu com a minha vida.

–Eu reconheço que exagerei, mas era um sentimento muito mais forte do que eu. Achei que te colocando na cadeia, me livraria desse martírio que era estar apaixonada por um Zé ninguém, um pelado. Eu fui muito estúpida.

– Então se entrega, porra!

– Eu disse que fui muito estúpida. Agora não sou mais.

– Eu fico.

– Então, adeus!

Mayra beijou-lhe na boca antes de chamar o taxi.

– Estas maletas me pertencem. – Disse ela.

Sem esboçar nenhuma resistência ele entregou as valises cheias de dólares. O taxi seguiu rumo ao aeroporto. JB ainda pode ver o sorriso petulante de Mayra sumir por entre a confusão de taxis que chegavam e saiam da Estação Rodoviária.



Escrito por César Pereira às 21h43
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Capítulo 41

Eva ou Adão

Momento em que JB é atendido por uma enfermeira a caminho da rodoviária

 

Um pouco menos atordoado, JB percebeu que não estavam indo para o terminal rodoviário central. Uma sensação desagradável parecia-lhe revirar o estômago. Levou a mão no machucado. O sangue ainda não havia parado de escorrer. Com certeza tinha aberto o supercílio. Sabia como era. Quando mais jovem havia feito um ferimento semelhante. Foi num jogo de futebol. A bola veio cruzada e ele foi cabecear. Só que Boca, o zagueiro do time adversário também estava na jogada. Boca era mais alto e possuía uma cabeça pra lá de dura. Um cortezinho de nada e sangue para valer.

– O terminal é para o outro lado. – Arriscou JB.

– Cala esta tua boca fedorenta, se não eu vou terminar de arrebentar a tua cara. – Respondeu um dos capangas.

O que estava dirigindo ria às gargalhadas. Em seguida a Combi parou em frente a uma casa de madeira. Buzinaram. Apareceu uma garota. Um deles saltou do veículo e conversou algo com ela. A moça fez sinal de positivo e olhou para JB. O Capanga mandou JB descer da perua.

– O amigo vai querer outro empurrãozinho? – Perguntou o que estava ao volante.

JB teve vontade de mandá-lo para o inferno, mas não seria um bom negócio. Mesmo desconfiado ele desceu rapidinho e seguiu a garota. Era bonita, usava mini-saia e tinha pernas bem tratadas.

– Não olha muito, meu irmão. A Eva é uma mulher comprometida. – Avisou um dos capangas.

– O que vocês vão fazer comigo? – Perguntou JB.

– Sossega. Por enquanto é só arrumar umas roupas decentes e fazer um curativo no machucado. Sou enfermeira. – Disse a garota.

– Afinal, não pega bem um cara com as roupas manchadas de sangue e um corte horroroso na testa pegar um ônibus para o Uruguai. – Falou um capanga.

O bom perfume da enfermeira fez JB não ligar muito para a dor provocada pela sutura que era feita sem anestesia. Vez por outra ela encostava os seios no ombro dele. Cada movimento era como se fosse uma carícia. “Ela está querendo alguma coisa comigo”, pensou.   

Com roupas novas e um curativo na testa, JB e os capangas seguiram para o terminal.

– Chegamos, senhor! – Gritou o motorista.

JB limitou-se a olhar o movimento no terminal.

– Não tem como fugir. – Sussurrou ironicamente o outro enquanto entregava as duas maletas para JB.

– E a enfermeira? É mulher de quem? – Perguntou JB.

O capanga caiu na gargalhada.

– Qual foi a graça?

– Tu estas falando da Eva?

– Sim, da Eva. Algum problema, além do fato de ela ser comprometida.

– Um problemão.

– Não estou entendendo.

– A Eva, meu irmão, na verdade é Adão. Ela é um travesti, cara!

JB pegou as maletas e seguiu em direção ao ônibus. Na banca de revistas comprou um jornal. Na capa, a foto do secretário de Segurança Péricles Guerra Justo e a seguinte Manchete: “SECRETÁRIO DE SEGURANÇA É ENCONTRADO MORTO. Suicídio é a causa mais provável, segundo a Polícia”, dizia um breve resumo da notícia.

JB Dobrou o jornal, entrou no ônibus segurando as duas maletas. Foi até a poltrona número 22, janela, mas uma mulher com um traje meio esquisito ocupava o lugar. Pensou em pedir para trocar de poltrona, mas pensou melhor e nada disse. A mulher poderia ser daquelas que arrumam confusão por pouca coisa. Apenas ocupou o acento do corredor, afinal aquela não seria uma boa hora para arrumar uma encrenca.

Sentou-se, apoiou as maletas junto aos pés, abriu o jornal na página policial para ler mais sobre o suicídio do Secretário de Segurança. “(...) antes dar um tiro de pistola automática na própria cabeça, Péricles Guerra Justo escreveu uma carta. Ele jurava inocência e acusava categoricamente a promotora de Justiça Mayra Thifany Buonavitta de ter desviado o dinheiro do programa de Ressocialização de Presos. Ele ainda confessava que a promotora teve um caso amoroso com ele só para ter acesso a seus dados pessoais para poder incriminá-lo com a abertura de contas em paraísos fiscais. Além dessas acusações, o secretário afirmava que Mayra fazia parte de uma quadrilha que dominava o crime organizado no sul do País”.

– Vaca Filha da Puta!

A mulher ao lado o encarou ligeiramente.

– A senhora que me desculpe, mas...mas...eu...Deixa pra lá.

Minutos depois, o motorista do ônibus sentou-se na cabine, fechou a porta e arrancou o veículo. JB teve a impressão de que a mulher de traje estranho que sentava ao seu lado encostava propositadamente sua perna na dele, mas JB não deu importância. Tinha o pensamento em Mayra Thifany.

 



Escrito por César Pereira às 21h14
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Capítulo 40

 

A Combi

Quando JB, com o nome trocado, se dá conta de que se meteu em mais uma enrascada e que é tarde para recuar


Depois de compreender que havia se metido em mais uma enrascada, JB sorriu para Bileca e disse:

– Então, Adeus!

– Espera ai um momentinho, senhor José Borges de Almeida.

– Mais alguma recomendação?

Bileca pegou duas valises e entregou para JB.

– Sua vida depende dessas duas maletas.

– Não estou entendendo. – Protestou JB.

– Não precisa entender. Apenas as entregue elas à pessoa certa.

– Quem?

– No momento certo o senhor saberá.

JB pegou as valises e quando ia saindo do bar do Bileca, quase foi atropelado por uma Combi, que parou poucos metros adiante. Da perua desceram dois sujeitos corpulentos, e vieram na direção do fugitivo.

– É esse o nosso passageiro? – Perguntou um deles para Bileca.

– É o próprio. – Com um sorriso sarcástico completou: Tratamento vip para o senhor JB.

– Pode deixar com a gente, chefia!

Com uma mesura desajeitada, um deles ordenou que JB entrasse no veículo.

– Por favor, senhor.

Por um momento JB ficou imóvel, olhando Bileca e os dois caras corpulentos que o levariam ate a estação rodoviária. Sentiu saudade do presídio. Mais uma vez havia tomado a decisão errada. Deveria ter ficado e enfrentado a situação. Talvez o Pé-de-Mesa não fosse tão perigoso quanto parecia. O mais forte dos dois empurrou JB em direção a Combi.

– Chega de moleza! Entra logo nesta merda que eu não tenho muito tempo a perder.

Com o empurrão, JB bateu com a cabeça na coluna da porta do veículo, caindo ao chão. O outro sujeito soergueu JB pelo fundilho da calça, jogando-o no interior da perua. Tonto e com um corte no supercílio, JB segurou as valises com força. Pensou em Mayra Thyfany Buonavitta enquanto a Combi arrancava aos solavancos.

 



Escrito por César Pereira às 22h02
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Capítulo 39

 

O Fosso

Quando JB finalmente ganha às ruas, mas se dá conta que a liberdade não veio junto

 

Ao ganhar a rua o ex- detento tratou logo de se distanciar do presídio. Teve dificuldades para tirar o bigode postiço que Zé da Silva lhe havia colocado. Livrou-se também da peruca e seguiu para o bar do Bileca, na vila Manaus, local onde alguém lhe entregaria uma nova documentação, de acordo com o que Zé da Silva lhe dissera na cela. JB respirou com força o ar da liberdade. Só não entendeu muito bem porque o Meia Colher aceitou ficar no presídio em seu lugar. Paciência. Agora a única coisa que teria de fazer era encontrar o bar do Bileca, pegar os documentos e cair fora.


         Depois de perambular a pé durante quase duas horas na vila Manaus, finalmente ele encontrou o bar do Bileca. Era um barraco de alvenaria, malfeito, caindo aos pedaços, com uma mesa de sinuca na entrada e um balcão encardido no fundo. Numa das paredes havia uma televisão ligada num programa de culinária. O lugar fedia a cachaça. Dois sujeitos mal encarados jogavam sinuca. Um outro, sentado próximo da janela bebia um samba de cahaça e fumava. No balcão, com uma toalha manchada no ombro e um palito de dente na boca, Bileca, o proprietário da bodega o olhou com certa curiosidade. Os dois sujeitos pararam de jogar. O outro deteve o copo de samba para observar a chegada do estranho.
    – Quem é o Bileca? – Perguntou JB.
Todos olharam para o dono do bar. Bileca sorriu.

    –  O senhor é o JB?
    – Sou.
    – Venha comigo.
    JB seguiu o Bileca. Os dois entraram numa espécie de depósito, cheio de televisores, aparelhos de som, motos e centenas de objetos, que iam desde balanças eletrônicas até bicicletas ergométricas. “Tudo roubado”, pensou JB.
    No final de um corredor escuro, Bileca abriu um porta, esperou JB passar e em seguida fechou o recinto. O local era espaço. Tinha ar condicionado e os móveis eram feitos sob medida. O chão brilhava e um grande tapete dava um ar de requinte ao escritório.

    – É persa. – Disse Bileca.
    JB limitou-se a balançar afirmativamente cabeça.
    – O senhor está surpreso?

    – É que o bar, o depósito...
    – É tudo uma bagunça, não é?
    – É...

    – Mas aqui as coisas são diferentes. – Bileca puxou um charuto e acendeu – É cubano. – Deu uma baforada na cara de JB e continuou falando – Aqui é a minha sala presidencial. – Mais uma baforada.

Bileca abriu uma gaveta, puxou um pequeno pacote e entregou para JB.
    – Ai tem tudo que um homem precisa para viver honestamente na criminalidade.

    JB pegou o pacote e antes de abri-lo, olhou para Bileca e sorriu. No pacote, havia uma carteira de couro, com identidade, CPF, Carteira de Motorista, Certidão de Nascimento e tudo.

    – Como conseguiram a minha foto?
    – Somos muito eficientes. – Outra baforada – Na verdade conseguimos tudo o que queremos.

    JB abriu a carteira e leu em voz alta o seu novo nome.

    – José Borges de Almeida. Nada mal. Ainda posso ser chamado de JB.
    – Pensamos em tudo, meu caro – Disse Bileca, soltando mais uma baforada do charuto cubano.

    No pacote ainda havia uma passagem de ônibus para Montevidéu.
    – O que significa isso? – Perguntou JB mostrando a passagem para Bileca quase envolto a uma nuvem de fumaça.

    – Pensamos em tudo, senhor JB. Em tudo mesmo.

    – E se eu não quiser viajar?

    – Bem, a questão é...

    – Vão me mandar de volta para a prisão? – Interrompeu JB.

    Bileca parecia não se importar com a arrogância de JB. Fumava o charuto cubano sem pressa. Com um sorriso irônico ele levantou-se da cadeira, foi até um mapa de Criciúma fixado na parede e convidou JB para aproximar-se.

    – Está é Criciúma. Aqui está o campo do Tigre. Ali é a Universidade. O presídio, a Prefeitura, a saída para Sangão. Aqui está o bairro Verdinho. – Deu uma longa tragada, olhou sorridente para JB e prosseguiu – Este é o ponto. Bem aqui. – Fez movimentos circulares com a mão.

    – Não estou vendo nada. – Disse JB.

    – Exatamente. O senhor não vê, mas eu o vejo quase toda a semana.

    – O que tem ali?

    – O senhor já entrou em alguma mina?

    – Nunca.

    – Então o senhor terá uma boa oportunidade, caso não queira ir para Montevidéu.

    – Vão me matar e me jogar dentro de uma mina abandonada?

    – Não, senhor. Longe disso. Não matamos ninguém. As pessoas é que acabam morrendo por falta de cuidado.

    JB entendeu bem o recado. No local apontado por Bileca existia um antigo fosso de ventilação de uma mina desativada. A profundidade total era de quase 120 metros com mais ou menos meio milhão de litros de água altamente poluída. Eles não hesitaram em jogá-lo dentro.

    – Quando embarco?

    –  Hoje, às 16 horas.

    – Estou atrasado.



Escrito por César Pereira às 17h34
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Capítulo 38

A fulga

 

Quando JB e Meia Colher tornan-se a mesma pessoa

 

– Sente-se senhor Valdomiro Godinho. – Disse o diretor, apontando a mão para cadeira.
Nervoso, o preso obedeceu prontamente. Após repassar a documentação, conferir e avaliar, o diretor deu um sorriso e falou:

– Meia Colher?
O detento balançou a cabeça afirmativamente.
– Perdeu a língua?
O recluso balançou negativamente a cabeça.
– Espero que o senhor tenha aprendido a lição, seu Valdomiro. Sempre que alguém vier lhe oferecer alguma furadeira pela metade do preço, pense duas vezes antes de comprar. Pode ser roubada. O Senhor entendeu?
O detento balançou afirmativamente a cabeça.
– Pode falar seu Valdomiro, o senhor está livre. Coloque seu polegar no scanner, só para confirmar se o senhor é o senhor mesmo. Coisa de rotina. – Deu uma risadinha.
O preso hesitou. O suor escorria pela testa. No rosto uma expressão de desalento misturada com terror.
– Algum problema seu Valdomiro? O senhor está passando mal?
O preso não deu ouvidos ao diretor. Olhou para suas mãos e para teto, como que pedindo a Deus um milagre, e colocou o polegar direito no scanner. Na tela apareceu sua foto, o nome e a alcunha: Meia Colher.
– Obrigado Zé da Silva. – Falou o preso em meio a um suspiro de alívio.

– O que o senhor disse?

– Nada!
– Como nada? Eu ouvi o senhor dizer algo parecido com Zé da Silva?
– Ah, é o nome do dono da casa que eu vou erguer um muro.

– Por um momento eu pensei que se tratava do Zé da Silva, o falsificador que dividia a cela com o senhor. O preso calou-se novamente. Então, o diretor entregou-lhe um pequeno embrulho, desejou sorte e recomendou juízo nessa nova oportunidade que teria na vida. Quando o detento ia saindo o diretor o chamou.

– Meia Colher, quanto o senhor cobra por hora?

Novamente o preso hesitou. Olhou para o teto, pensou e finalmente respondeu timidamente:

– Uns 15 reais por hora.

– Com o ajudante?

– Pode ser.

– Então o senhor está contratado para fazer uns reparos na garagem da minha casa.

– Fechado.

– Quando o senhor pode ir?

– Depois de amanhã, pode ser?

O diretor puxou a carteira, tirou duas notas de cem reais e entregou ao homem que reformaria sua garagem. Este pegou o dinheiro, pôs no bolso, agradeceu e disse:

– O senhor não irá se arrepender do meu trabalho, diretor.

– Eu sei. Agora vá que eu tenho muita coisa a fazer aqui.

O preso obedeceu prontamente e saiu feliz feito um passarinho que se escapa da gaiola.



Escrito por César Pereira às 13h37
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Capítulo 37

O plano
Quando Chave Mestre pede desculpas a JB e Meia Colher recebe a notícia de sua soltura

Chave Mestre e Natasha caminhavam juntos no pátio da penitenciária. Pareciam felizes. Os dois chegaram onde JB, Zé da Silva e Meia Colher repassavam o plano da fuga. Um pouco mais afastados estavam Calado e Xepa.
– JB, você está ótimo! – disse Natasha.
– Estou me recuperando bem.
– JB, tu és um cara legal. Te devo desculpas por um montão de coisas erradas que eu e o Batelada fizemos pra ti. – Falou o companheiro de Natasha.
JB baixou a cabeça, como se procurasse no chão as palavras. Depois olhou para os dois e sorriu.
– Chave Mestre, o que ...
– O nome dele é Maicon Gedson! – Atalhou Natasha.
– Desculpa, eu me esqueci. – JB sorriu novamente e continuou – Maicon ...
– Gedson! – Completou Natasha.
– Belezoca, deixa o cara falar! – Interveio Chave Mestre.
Aquilo que seria o primeiro desentendimento entre Chave Mestre e Natasha foi interrompido pela voz petulante de um guarda.
– Quem é o Meia Colher?
– Eu.
– Pega as tuas tralhas e me acompanha até o diretor. Parece que te soltaram.
– Até que enfim viram que eu sou inocente!
– Anda logo se não eles mudam de idéia. – Caçoou o guarda.
– Posso me despedir dos meus amigos primeiro?
– Pode, mas vai rápido que eu não tenho muito tempo à perder com malandro.
Mal o oficial se retirou, JB, Meia Colher, Zé da Silva, Calado e Xepa começaram a por o plano da fuga em pratica.



Escrito por César Pereira às 13h41
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Capítulo 36

 

JB decide fugir.

Quando JB não viu outra saída, se não a fuga do presídio

 

Algumas semanas depois do incêndio, a vida no presídio voltava ao normal. A morte do diretor, para a polícia, foi um mistério. Devido ao estado do que restou do corpo, os peritos não puderam descobrir muitas coisas. O caso foi dado como um acidente. O falecido diretor recebeu uma condecoração póstuma pela sua bravura ao morrer tentando salvar a vida de um grupo de presos.

Um novo diretor foi nomeado. Era um sujeito magro, alto, narigudo e usava óculos fundo de garrafa. Possuía um jeito diferente de lidar com os presos. Humano, boa gente, implantou mudanças no presídio. As solitárias foram desativadas. E os agentes carcerários obrigados a mudar a velha e não muito boa conduta. As mordomias, de alguns presos foram cortadas. Todo mundo ali era igual. No princípio houve uma chiadeira geral, mas a malandragem acabou se acostumando com a nova ordem.

JB, que decidira não fugir, pensou melhor e optou pela fuga. O diretor certamente não iria mais incomodá-lo, estava morto. Mas, Pé de Mesa, que retornara do hospital o jurara de morte. O bandido estuprador teve os testículos retirados após uma série de complicações provocadas pela patada recebida no saco, no dia do incêndio da penitenciária.

– Eu topo! – Disse JB a Zé da Silva.

– Bom garoto. – Falou Zé da Silva, dando um tapinha nas costas de JB.

– Até que enfim. – Fez Meia Colher, o pedreiro.

– Fugir não é a melhor coisa a fazer, mas eu não tenho outra saída.

– Então vamos logo tratar dos preparativos. – completou Zé da Silva.



Escrito por César Pereira às 17h27
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Capítulo 35

 

O incêndio

Quando o fogo sai devorando tudo o que vê pela frente e como JB sorriu satisfeito

 

O alarme de incêndio salvou momentaneamente o traseiro de JB. Num sobressalto, o diretor e os guardas correram para o pátio e deixaram os dois presos na sala. Reunindo todas as forças que podia, JB acertou um violento chute na genitália de Pé de Mesa, que foi ao chão se contorcendo em dor.

O incêndio havia sido provocado por um grupo de presos amotinados numa das alas. Com eles estavam oito reféns. Cinco presos e três agentes prisionais.
 Com um megafone, o diretor exigiu que os amotinados se entregassem, caso contrário um destacamento da Polícia Militar invadiria o presídio. João Gordo, que havia se oferecido para negociar com a direção do presídio, empunhava a bíblia numa mão e um estilete na outra. Ele prontamente respondeu a ameaça do diretor.

– Sem invasão meu irmão! Minhas ovelhas só querem umas coisinhas básicas e nada mais.

– João Gordo, para com essa palhaçada e se entrega logo que eu tenho muito serviço a fazer.
– João Gordo é o caralho! Pastor João.

– É a última chance. Se vocês não se entregarem nós vamos invadir esta merda e comer o rabo de vocês, ouviram?

– Antes, com a permissão de Deus, nós vamos oferecer alguns cordeiros em sacrifício. – Respondeu João Gordo em tom de pregação.

– Deixa de lorota, rapaz!

– É isso mesmo! Se vocês se meterem a besta, nós vamos degolar uma meia dúzia de veados aqui dentro. Três deles usam farda!

Não demorou muito para o fogo se espalhar por outras alas do presídio. O local virava um inferno rapidamente. Tudo ardia em chamas. Os presos exageraram na dose. Se não saíssem do local imediatamente virariam churrascos.

– Vamos dar o fora daqui! – Gritou um dos líderes.

– E o nosso motim? – Perguntou outro.

– O motim que vá para o inferno! – Berrou um terceiro.

– Não blasfeme, irmão! – Advertiu João Gordo com a bíblia em punho. – Mas acho melhor a gente sair daqui agora mesmo.

– Não ouviram o diretor dizer que vai comer o nosso rabo?

– É melhor que coma!

– Bem que eu desconfiava desse teu jeitinho.

– Vê lá como fala...

O impasse entre os presos foi logo desfeito quando a metade do teto do corredor desabou. Cada um tratou logo de salvar a própria pele. O motim literalmente havia sido consumido pelas chamas.

Desnorteado, o diretor e mais dois guardas corriam para um lado e para o outro, tentando evitar uma tragédia. Quando o destacamento da Polícia Militar chegou, a rebelião já tinha terminado. Numa das alas o fogo consumia uma pilha de colchões amontoados. A fumaça era muita. Precisava fazer alguma coisa antes que a penitenciária virasse um monte de cinzas. Graças a Deus os bombeiros já estavam trabalhando. Com um pouco de sorte os prejuízos não seriam muitos. Mas ele precisava inspecionar com os próprios olhos as alas para ver se ninguém havia ficado trancado em alguma cela. Morre-se alguém queimado, aí sim estaria em maus lençóis. Naquele instante o diretor ouviu gritos de socorro. Vinham do fundo do corredor em chamas.

– Porra! – Gritou o diretor.

Os dois guardas que o acompanhavam tentaram vencer as chamas, mas não tiveram coragem suficiente de seguir em frente e recuaram.

– Seus dois molengas! – Gritou o diretor – Vão pedir socorro que eu mesmo vou tentar tirar aqueles merdas de lá!

Os guardas saíram em disparada. O diretor meteu-se corredor adentro, até chegar ao grupo. Eram quatro presos.
– Vamos! Ainda dá para ir pelo corredor, vamos! – Gritou o diretor.

Um deles era Calado, que segurava um estilete. Os outros três também estavam armados com espetos.

Duas horas depois, o Corpo de Bombeiros conseguiu apagar o incêndio. Nus, os presos foram todos colocados no pátio do presídio. Apesar da violência das chamas, entre os internos houve apenas algumas escoriações e queimaduras leves. A única vítima foi o diretor, encontrado sob os escombros completamente carbonizado. Outro preso foi conduzido ao hospital com os testículos esmigalhados. Era Pé de Mesa.
Quando JB soube da morte horrível do diretor deu um sorriso para os companheiros de cela. Calado piscou um dos olhos e retribuiu o sorriso. Xepa pediu um cigarro. João Gordo, que era levado pelos guardas algemado, parou próximo a JB e disse.

– Tal qual Daniel, serei jogado na cova dos leões.
– Que Deus te ampare. – Rogou JB.

– Pobres leões. – Respondeu o pastor João Gordo, exibindo um sorriso.



Escrito por César Pereira às 13h33
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Capítulo 34

 

A conversa com o diretor

Quando JB enfrenta a fúria do diretor do presídio e só a providência divina poderá salvá-lo.

 

 Naquela noite, JB teve um sono agitado. Acordou algumas vezes assustado com os pesadelos. Dormia. Sonhava. O diretor quebrava suas costelas uma a uma. Acordava. Dormia. Sonhava. O diretor o trancafiava na solitária com o cadáver podre do Batelada. Acordava. Dormia. Sonhava. O diretor transava com a promotora Mayra Thifany no chão, enquanto ele assistia a cena algemado numa cadeira.

Para livrar-se dos pesadelos, achou melhor passar o resto da noite acordado. Agora meditava sobre a possibilidade da fuga. Ficou imaginando como seria. Ele ganhando a liberdade, andando na rua com o nome trocado, livre para fazer o quisesse. Talvez fosse morar no Nordeste ou na Amazônia. Recomeçaria a vida num daqueles lugarejos esquecidos em meio à selva. Por outro lado, a possibilidade de dar tudo errado na hora da fuga também passou cabeça. O diretor certamente o mataria de tanta porrada para aprender a lição. Da cadeia não se foge. 
            Nos últimos tempos havia sempre optado pelas coisas erradas. Seria hora de optar pelo certo. O certo era não fugir e encarar a vida de frente. Mesmo que o diretor quisesse comer o seu fígado. Não reagiria. Comportar-se-ia como um cordeiro quando tem o pescoço aberto pela lâmina de um punhal. Não berraria. Estava decidido: fugir, não. Ficaria na prisão e fosse o que Deus e o diabo quisessem. Respirou fundo. Sentiu-se aliviado. Com a ideia da fuga banida de seus pensamentos, os pesadelos também sumiriam. Dormiu de novo. O sonho era bom, mas foi acordado pelo barulho da porta da grade sendo aberta. Três agentes. Um entrou para falar com JB e dois ficaram postados pelo lado de fora.

– Levanta e vem com a gente – Disse o guarda.

– O que houve?

O guarda puxou o cacete e bateu com força nas costas de JB.

– Mais alguma pergunta?

Com dificuldade de respirar, JB levantou-se da cama e tentou vestir a calça, mas foi impedido pelo guarda.

– Não precisa levar bagagem. O passeio é rápido.
– Mas estou só de cuecas – Mais uma cacetada nas costas.

– Vamos, anda! – Gritou o guarda.

Os três agentes o levaram até a sala do diretor. Este olhou para João Batista e sorriu.

– Como vão as costelas, JB? – Fez uma pausa esperando a resposta do preso, que não veio – Elas ainda o incomodam?  – Nova pausa – Elas ainda doem?

JB havia decido não falar. Pois sabia que qualquer palavra seria uma deixa para o diretor agredi-lo.

– Perdeu a língua, é? – O diretor encostou o cassetete sobre as costelas de JB, que em vão tentou recuar.

– Seu veado, filho de uma puta, eu te fiz uma pergunta! – Apertou o cassetete com mais força contra as costelas fraturadas de JB.

JB lembrou do cordeiro que morre sem berrar. Pensou em fazer a coisa certa. Só que naquele momento a coisa certa estava misturada com as coisas erradas. O certo seria, por acaso, responder as perguntas idiotas do diretor e desencadear uma série de torturas? Seria ficar calado e apanhar por não responder as perguntas do diretor? Que merda! Outra vez estava confuso. Por fim decidiu falar.

– Ainda dói pra caramba.

– Não ouvi direito. – cutucou as costelas fraturadas com mais força – Fala direito comigo, rapaz!

– Ainda dói! – Gritou desesperado, JB.

– Não precisa gritar nos meus ouvidos, seu imbecil! – O diretor desferiu um golpe de cassetete na cabeça de JB, que estatelou-se no piso.

– Levanta! Quem te deu a permissão para sujar o chão da minha sala?

Tonto, JB não conseguia articular os movimentos para colocar-se de pé. Os guardas o ergueram pelos braços. O diretor mais uma vez encostou o cassetete nas costelas de JB e apertou com força.

– Eu sei muito bem o que o amigo está sentindo.  – olhou para os guardas com um sorriso irônico – Uma vez, durante um treinamento na academia da Polícia Militar, sofri um pequeno acidente e puf! Lá se foram duas costelas. Doeu pra danar. O médico me disse que por pouco eu não morri. Uma das costelas quase me perfurou o pulmão. – JB tentava resistir à dor quase insuportável provocada pela pressão do cassetete. – O médico me disse que as costelas, quando quebradas, são um perigo. Às vezes o paciente acaba morrendo, mesmo depois do atendimento adequado.

– Vai me matar? – Perguntou JB.

O preso levou outra estocada nas costelas. Achou que iria desmaiar. A dor latejante impedia que ele ficasse de pé.

– Matar? – Olhou para os demais que estavam na sala – Eu matar alguém? Que pergunta mais idiota.

Desferiu mais uma cacetada na altura do rosto de JB, que aparou o golpe com os braços. O preso, sofrendo os espasmos provocados pela dor, contorcia-se no piso. O diretor ainda aplicou-lhe um chute nas costas. Os guardas novamente agarraram JB pelos braços e o sustentaram de pé na frente do diretor.

– Escuta aqui, seu veado insolente – apertou o pescoço do preso como quem amassa um monte de papel – eu não vou sujar as minhas mãos, matando uma imundice, feito você. – Largou o pescoço – Para um tipinho da tua marca, tenho coisa muito melhor. – E sorrindo para os demais, chamou um preso que atendia como Pé de Mesa, famoso no presídio por estuprar condenados acusados de abuso sexual.

Por puro instinto de preservação, JB ainda tentou um derradeiro esforço para livrar-se dos guardas, mas estes o seguravam forte. Um deles arrancou-lhe a cueca, enquanto Pé de Mesa já se aproximava com o seu desmensurado membro totalmente ereto. “Estou fodido”, resmungou JB. O diretor sentou-se confortavelmente em sua poltrona para assistir aquela cena bizarra, quando o alarme de incêndio tocou.



Escrito por César Pereira às 08h47
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Capítulo 33

 

Sem saída

 

Quando JB reconhece que chegou ao fim da linha

 

De volta à cela, JB não encontrou mais Natasha e Chave Mestre. Os dois foram transferidos para outra ala. No lugar deles entrou um pedreiro, preso por receptação, que atendia por Meia Colher e um sujeito com cara de malandro, preso por falsificação de documentos, chamado Zé da Silva.

João Gordo recebeu JB, impondo uma das mãos e recitando um versículo da Bíblia.

– Deus não lhe dá mais do que você pode carregar!

– Não sabia que podia carregar tanta coisa ruim.

– Cristo carregou a cruz e morreu pregado nela e não reclamou

– É verdade. Acho que estão me tirando para Cristo.        

João Gordo ergueu JB pelo colarinho.

            – Não pronuncia em vão o nome do senhor, caralho!

Calado, que assistia TV, fez sinal com a mão para que os dois parassem de tagarelar. Estava passando algo sobre o escândalo financeiro na segurança pública. O secretário Péricles Guerra Justo pedia exoneração do cargo. Numa entrevista, Péricles negava todas as acusações com veemência e culpava seus adversários políticos de estarem armando um golpe. O secretário falava que havia sido alvo de uma grande cilada e que um dia a verdade viria à tona e sua inocência seria comprovada.

            – Não sei por quê, mas tenho impressão que esse sujeito tá falando a verdade – Disse Zé da Silva.

            – Porra! Só porque eu comprei umas ferramentazinhas roubadas tô aqui no xadrez por receptação. Esse figurão rouba a grana do povo e ainda aparece na TV fazendo pose de inocente. – Bronqueou Meia Colher.

            – Só não entendo umas coisinhas: o cara tem um empregão desses. Ganha uma nota preta, come tudo quanto é filé e ainda quer mais? Vai se foder! – Falou Xepa antes de pedir um cigarro ao pedreiro.

            – Vocês estão preocupados com ele? – Gritou JB – Eu não estou nenhum pouquinho. Minha situação é muito pior. Além da minha pena, estão me acusando de estuprar a promotora e de ter morto o Batelada. Nunca mais sairei daqui! – Desabafou JB.

            – Para Deus nada é impossível! – Fez João Gordo.

            Zé da Silva abriu um sorriso, chegou perto de JB e disse:

            – Se para Deus nada é impossível, imagina para mim. – Fez uma pausa, olhou para os demais presos e continuou. – Se o amigo quiser eu arranjo tudo.

            – Como assim?

            – Alvará de soltura, nome e sobrenome, carteira de identidade, CPF, certidão de nascimento e tudo. Até grana.

            – Eu não entendi direito. Alvará... Fugir da cadeia?

            – O amigo é quem sabe. Se quiser pode ficar para ver o que acontece.

            – Mas fugir é perigoso. Posso me complicar ainda mais.

            – Mais complicado não vai ficar, JB. – Argumentou Xepa, enquanto soltava uma baforada do cigarro.

            – João Gor...     

            – Pastor João Gordo, porra!

            – Tá bom! Pastor João Gordo, o que eu devo fazer? – Perguntou JB.

            – Pelos ensinamentos do Cristo, eu diria que o amigo deveria oferecer a outra face e entregar o corpo em holocausto. Não devemos nunca descumprir as leis de Deus, até porque ele é infinitamente bondoso e tem sempre um perdão pronto para cada cagada que a gente faz. Mas, estamos dentro de um presídio sob as leis do homem; e o homem não carrega o perdão no coração. Principalmente o diretor que quer comer o fígado do irmão. – antes de gritar aleluia, João Gordo falou ao ouvido de JB – Te manda!

 

Zé da Silva sorriu.

– Tudo bem, eu fujo, mas...

– Mas, o quê?

– Porra! Isso deve custar uma grana preta e estou fodido.

– Não esquenta! Depois a gente conversa. – Disse Zé da Silva dando um tapinha nas costas de JB, que enfiava a cabeça entre as duas mãos.

            Calado ensaiou um sorriso.



Escrito por César Pereira às 14h43
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Capítulo 32

 

O culpado

Quando JB se dá conta que é inútil provar sua inocência na morte de Batelada.

 

A notícia da morte de Batelada se espalhou logo pelo presídio. O fim do reinado do chefão da malandragem dentro da penitenciária era o assunto principal. Chave Mestre recebeu o conforto meigo de Natasha pela morte do irmão.

– Maiquel, meu amor, se não fosse agora, seria mais tarde. No crime, a vida é muito curta.

– Você tem razão, Natasha. Só não entendo como o JB conseguiu enfiar aquele espeto nele.

– Pra mim ele subestimou o JB e tomou no cu. – Falou Xepa.

– Foi o diabo que entrou no corpo daqueles infelizes pecadores – Disse João Gordo.

Calado ficou quieto e começou a afiar outro estilete.

 

Com alguns ossos de costela quebrados e inúmeros hematomas espalhados pelo corpo, JB foi transferido para o hospital para receber atendimento médico. Lá permaneceu alguns dias, onde realizou exames de praxe.

– Pena que não morreram os dois. Seriam dois problemas a menos para sociedade – Disse um dos guardas para o médico.

JB pensou em mandá-los para o inferno, mas ficou quieto para não piorar a situação.

De volta ao presídio, JB foi recebido pelo diretor, que não estava nem um pouco satisfeito com a morte de Batelada. Sabia que sem o chefão dos bandidos, as coisas dentro da prisão seriam muito mais difíceis para ele, pois Chicão tinha o controle sobre os internos e isso facilitava o seu trabalho, sem falar na boa soma em dinheiro que as regalias de Batelada lhe rendiam no final do mês.

De pé, JB ouviu o sermão nada agradável do diretor.

– Bom dia, seu João Batista Cordeiro. Como vai a família?

Sentindo dores no abdômen, não falou, apenas ensaiou um sorriso melancólico.

– Juro, não sabia da sua habilidade com armas brancas. Também não sabia da sua coragem de ir à cela do Batelada e assassiná-lo daquela maneira.

– Eu não fiz aquilo. – Resmungou JB.

– Cale a boca seu veado filho da puta! – Berrou o diretor, quase encostando o nariz na face do preso. – Vai ver o Batelada se arrependeu de sua vida cheia de crimes e cometeu suicídio! – Deu uma volta ao redor da mesa, puxou um cassetete, encostou com força nas costelas fraturadas do detento e prosseguiu – Por sua causa aqueles merdas da corregedoria e os maricas dos direitos humanos vão virar este chiqueiro de pernas pra cima. Isso sem falar naqueles urubus da imprensa. Vão me trucidar!

JB tentou falar, mas o diretor desferiu-lhe um tapa que explodiu na sua face.

– Fala só uma coisinha e eu acabo com a tua raça! – Gritou o diretor. – Vou comer o teu rabo, entendeu? – Deu mais um tapa – Tu estás fodido. No que depender de mim, vais apodrecer na cadeia, seu filho de uma puta! – Deu mais um tapa. Dessa vez mais forte. JB caiu sobre um dos guardas.



Escrito por César Pereira às 12h09
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Capítulo 31

 

A Lâmina gelada

Quando JB fica de cara com a morte no final do corredor

 

João Gordo, Xepa e um bolo de presos comemoravam quase que extasiados a conversão de Chave Mestre e Natasha.

– Pessoal, pessoal, o negócio é o seguinte: – falou Chave Mestre em tom de seriedade – Desse momento em diante, sou um outro cara. Vou viver na honestidade. Quando eu e a Natasha sair daqui, a gente vamos trabalhar. A gente vamos progredir juntos. A gente vamos orar e pregar juntos.

– Aleluia! – Gritou João Gordo aos prantos.

– Valeu, Chave Mestre! É isso aí. – aplaudiu Xepa.

– O Chave Mestre morreu ainda pouco. Pessoal, eu gostaria que vocês me chamassem pelo meu nome verdadeiro: Maiquel Gedson.

– Que lindo! – Fez Natasha.

– Aleluia! Seja bem vindo ao mundo do Senhor, Maiquel! – Bradou João Gordo, enxugando as lágrimas.

Todos gritavam aleluia. JB observava um pouco afastado o burburinho e os gritos de aleluia dos presos, quando dois sujeitos o arrastaram para o final do corredor do pavilhão onde ficava a cela de Chicão Batelada. Os gritos de JB não foram ouvidos por ninguém, mas Calado viu quando os dois levaram o companheiro de cela.

– Aqui está o veadinho, Chicão!

– Vão! Podem sair que o assunto aqui é particular.

Os dois empurraram JB contra o corpanzil de Chicão.

– João Batista de Merda! – Gritou Chicão Batelada ao mesmo tempo em que lhe aplicou um pontapé na altura do estômago.

JB caiu estatelado no piso frio da cela. Batelada não perdeu tempo e chutou-lhe novamente. JB tentava proteger o rosto com as mãos, mas era inútil. O chefão dos bandidos era muito forte. JB não tinha forças para reagir.

– A donzela não aguentou nem os tratamentos de boas vindas. Agora eu vou fazer o que eu sempre faço com quem se mete a besta comigo. Vou te arrancar os ovos, seu filho de uma égua!

Tudo o que JB conseguiu fazer foi chamá-lo de veado. Batelada ficou ainda mais furioso e puxou a faca para terminar o serviço.

– Batelada! – Alguém chamou.

Possesso, Batelada virou-se para ver quem era o atrevido que ousava interromper sua diversão, mas a lâmina gelada do estilete já havia atravessado sua barriga flácida. Ele ainda teve tempo de reconhecer o dono da arma.

– Calado, vou te mandar pro inferno, seu filho da puta... filho... da...

Ao cair agonizante junto ao corpo desacordado de JB, o bandido ainda tentou em vão tirar o estilete cravado em sua barriga. Quando os guardas chegaram, Batelada estava morto.



Escrito por César Pereira às 12h08
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Capítulo 30

 

Amor e conversão

Quando Natasha e Chave Mestre anunciam o casamento e são convertidos pelo pastor João.

 

Ainda com o olho bastante inchado, Chave Mestre fazia planos com Natasha. Naquele dia os dois não saíram da cela para o rotineiro banho de sol. Passaram à tarde sob os lençóis. O amor entre ambos transcendia as convenções sociais e concedia-lhes uma nova esperança frente a um possível recomeço longe do mundo do crime. Chave Mestre parecia mudado. Natasha se enchia de ternura.

Quando os outros presos retornaram ao cubículo, o casal os recepcionava com uma contagiante alegria.

– As donzelas viram passarinhos verdes, por acaso? – Perguntou Xepa.

– Passarinhos, pombinhas, canarinhos, tico-ticos e sabiás de todas as cores. Um verdadeiro arco-íris com as mais belas criaturas esvoaçantes da natureza! – respondeu Natasha, como quem declama uma poesia na escola.

– Só estamos felizes porque temos um ao outro e uma vida inteira pela frente. Quem sabe agora a gente “fizemos” as coisas certas? A gente só queremos uma chance, meu irmão. – Falou Chave Mestre, cheio de entusiasmo.

– Deus operou um milagre na vida desse irmão! Aleluia! – Gritou João Gordo.

– Aleluia!

– Vamos nos casar – anunciou Chave Mestre, segurando a mão de Natasha.

– João Gordo, tu que és o padre aqui do pedaço, faz logo a cerimônia de casamento. – Falou Xepa.

– João Gordo é a tua mãe! Além do mais, sou um pastor e não padre. Pastor João, entendeu? – Bradou João Gordo suspendendo Xepa pela gola da camisa.

– Aleluia! – Esganiçou Xepa.

João Gordo largou Xepa no chão.

– João Gor... quero dizer: Pastor João, casa a gente? – Pediu Natasha.

– Caso sim, mas tem uma coisa: não posso casar alguém de outra religião, porra!

– A gente se converte – sugeriu Chave Mestre.

– Caralho! Vocês dois serão as primeiras ovelhinhas do meu rebanho! Tá vendo Xepa? Tá vendo só? – Ergueu Xepa pelos braços e começou a pular de alegria no xadrez.

– Aleluia!

JB e Calado ficaram encarregados de preparar o ambiente para conversão. Xepa se prontificou em ajudar, mas tudo o que fez foi pedir um cigarro para JB e dependurar um crucifixo num altar improvisado.

– Xepa, enfia este crucifixo no cu. Minha religião não gosta dessas coisas de imagem, porra!

A conversão de Chave Mestre e Natasha deu-se depois de uma longa pregação do Pastor João no pátio da penitenciária. A cerimônia foi acompanhada por algumas dezenas de presos. Chicão Batelada, que acompanhava tudo de longe, decidiu que era o momento de dar a lição final a JB.

 



Escrito por César Pereira às 11h28
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